Mostrando postagens com marcador deus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador deus. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Irreligião - Capítulo 4

Essas traduções tem mesmo me feito melhorar muito o meu inglês. No primeiro capítulo eu demorava muito mais em cada parágrafo e agora a coisa fui bem mais. Tanto é que já estou trazendo o quarto capítulo!

Para ilustrar, mais uma tirinha do Um Sábado Qualquer:

    Parte I: Quatro Argumentos Clássicos

  1. O argumento da Causa Primeira (e intermediários desnecessários)
  2. O argumento do Design (e alguns cálculos criacionistas)
  3. Uma pseudociência pessoalmente elaborada
  4. O argumento do Princípio Antrópico (e um Apocalipse Probabilístico)
---------------------------------------------------------------------------------------------------

O argumento do Princípio Antrópico (e um Apocalipse Probabilístico)

Tudo no mundo parece ser feito para nós. Essa é uma ideia resistente, como evidencia a frase de Voltaire: “Observe, por exemplo, que o nariz é formado para os óculos”. Claramente, alguma coisa deve explicar esse “encaixe”. De forma mais atual e precisa, a ideia se torna o princípio antrópico, que diz que as constantes físicas básicas do universo são “finamente sintonizadas” para permitir que existamos e se não fossem tão precisamente sintonizadas, nós não estaríamos aqui para observá-las. Isso leva a uma versão mais cientificamente sofisticada do argumento do design, com Deus como um sintonizador encarregado:


  1. Os valores das constantes físicas, o equilíbrio entre matéria e antimatéria e várias outras leis da física são necessárias para os seres humanos existirem.
  2. Seres humanos existem
  3. A física deve ter sido finamente sintonizada para os valores constantes para possibilitar a nossa existência
  4. Portante o sintonizador, Deus, existe.

Claramente, o salto das Premissas 1 e 2 para 3 no argumento esboçado acima é um dos aspectos mais fracos desse argumento. O que segue das Premissas 1 e 2 é simplesmente que os valores das constantes são o que são. A discussão do princípio antrópico é sensível a qual dos muitos sabores – indo do vazio ao injustificado – está sendo provado. Alguns cientistas dizem que o princípio é tautológico, uma simpática maneira de dizer: “Se as coisas – as contantes, as estrelas, formas de vida – fossem diferentes, então, elas seriam diferentes.”. Eles notam que nada é explicado ao dizer que para existirmos e observar o universo, suas leis e constantes devem permitir que observadores como nós existam.

Outra resposta ao princípio antrópico é que outras formas de vida, talvez não baseadas em carbono, são possíveis e deveriam se desenvolver, fossem as constantes ou leis da física diferentes ou os intervalos de valores das constantes físicas para o surgimento da vida maiores que o princípio assume (como eles bem podem ser). Em outras palavras, se as constantes ou leis fossem diferentes, formas de vida diferentes poderiam se desenvolver, possivelmente até mesmo ao ponto onde eles devam estar discutindo a sintonia fina que permite que eles existam. Alem disso, outras respostas notam que as leis e constantes físicas podem não ser invariantes por todo o universo (nossa região, mas não outras, permitindo o desenvolvimento da vida), ou que podem existir vários universos, cada um com leis e constantes diferentes.

O físico Lee Smolin postulou um tipo de evolução de universos, onde novos universos “bebês” nascem quando buracos negros são formados em outros universos “pais”. Esses bebês universos tem constantes e leis um pouco diferentes e Smolin lançou a hipótese que um universo permitindo o aparecimento de outros buracos negros (e, então, florescendo de forma diferente) deve ter as constantes e leis físicas que o nosso universo tem. Apesar do que inicialmente parece ser uma teoria exótica, esta é, como observa Smolin, pelo menos falseável.



Menos conflituosas com a física e a metafísica especulativa duvid

osa do que o princípio antrópico é o fenômeno relacionado de auto seleção, a elaboração de inferências a partir da nossa própria existência. Uma aplicação interessante da auto seleção que tem um sentido quase religioso é o assim chamado argumento do Apocalipse.

Apocalipse, tantas maneiras de acontecer. O céu está caindo? Se sim, quando? Mesmo quando eles não tem base nenhuma, constantes relatos sobre proliferação de armas nucleares, pandemias como a gripe aviária, guerras no Oriente Médio e aquecimento global, entre outras catástrofes ambientais, revivem essas questões perenes humanas e contribuem para o sentimento de mal-estar. Assim também fez a recente passagem de um asteroide com quase cem pés de diâmetro a trinta mil milhas da Terra.

Essas histórias nos noticiários trazem para a mente de muitos cristãos (e outros) cenários apocalípticos e um monte de bobagens sobre o livro do Apocalipse (ou Gog e Magog, Armagedom, o anticristo, o retorno do Imã Oculto e assim por diante). Alguns até interpretam como sendo sinais anunciando o Arrebatamento, quando Jesus vai levá-los diretamente para o paraíso, deixando os os incrédulos para trás, como pessoas sem par no baile divino. Uma resposta a tais eventos que constitui uma “ruptura” menor com a ciência e o senso comum é um experimento filosófico abstrato recente. Desenvolvido por várias pessoas, incluindo o filósofo de Oxford, Nick Bostrom, e o físico de Princeton, J. Richard Gott, o argumento do Apocalipse (ou pelo menos uma versão dele) vai grosseiramente como:

Existe uma grande máquina de loteria na sua frente e te dizem que nela existem bolas consecutivamente numeradas, ou 10 delas ou 10000 delas. A máquina é opaca, então você não pode dizer quantas bolas estão dentro dela, mas você tem bastante certeza de que tem um monte delas. De fato, você inicialmente estima a probabilidade de terem 10000 bolas na máquina como sendo 95 por cento e de terem apenas 10 bolas de ser aproximadamente 5 por cento.

Agora, a máquina gira, você abre uma pequena porta ao lado dela e uma bola aleatoriamente selecionada rola para fora. Você vê que é uma bola com o número 8 e você coloca de volta na máquina de loteria. Você continua achando que tem apenas 5 por cento de chance de haverem apenas 10 bolas na máquina?

Dado o quão baixo o número 8 é, parece razoável pensar que as chances de serem apenas 10 bolas na máquina são muito maiores do que sua estimativa original de 5 por cento. Dadas as premissas do problema, de fato, nos podemos utilizar um pouco da matemática do chamado teorema de Bayes para concluir que sua estimativa da probabilidade de 10 bolas estarem na máquina deveria ser revisada de 5 por cento para 98 por cento. Da mesma forma, sua estimativa da probabilidade de 10000 bolas estarem nela deveria ser revisada de 95 por cento para 2 por cento.

O que isso tem a ver com o Apocalipse? Para saber, nós devemos tentar imaginar uma máquina de loteria cósmica que contem os nomes e orem de nascimento de todos os seres humanos do passado, presente e futuro. Digamos que saibamos que essa máquina contém ou 100 bilhões de nomes ou – o cenário otimista – 100 trilhões de nomes.

E como nós pegamos um humano aleatoriamente do conjunto de todos os humanos? Nós simplesmente consideramos nós mesmos, argumentamos que não há nada especial sobre nós ou sobre nosso tempo e que qualquer um de nós pode ser pensado como sendo um humano aleatoriamente selecionado do conjunto de todos os humanos do passado, presente e futuro. (Essa parte do argumento pode ser melhor desenvolvida.)

Se assumirmos que tenham existido cerca de 80 bilhões de humanos até agora (o número é simplesmente ilustrativo para facilitar a compreensão), a primeira alternativa de 100 bilhões de humanos corresponde a um fim relativamente iminente da raça humana – com apenas 20 bilhões a mais de nós a vir a existir. A segunda alternativa de 100 trilhões de humanos correspondem a um longo, longo futuro à nossa frente.

Mesmo que nós inicialmente pensemos que teremos um longo, longo futuro à nossa frente, quando nós selecionamos aleatoriamente o nome de uma pessoa da maquina e a ordem de nascimento da pessoa é apenas 80 bilhões ou por aí, nós devemos reavaliar as nossas crenças. Nós devemos reduzir drasticamente (ou pelo menos o argumento aconselha) nossas estimativas de probabilidade de longa sobrevivência, de ter 100 trilhões de nós. A razão é a mesma do exemplo das bolas de loteria: o número relativamente baixo 8 (ou 80 bilhões) sugere que não existem muitas bolas (nomes de humanos) na máquina.

Aqui vai outro exemplo um pouco diferente. Vamos assumir que Al receba cerca de 20 e-mails por dia, enquanto a média de Bob é de cerca de 2000 por dia. Alguém pega uma das contas, escolhe um e-mail aleatoriamente e nota que o e-mail é o décimo quarto recebido naquele dia. De quem é mais provável que essa conta de e-mail seja?

Existem outros exemplos planejados para fortalecer os numerosos pontos fracos do argumento do Apocalipse. Alguns deles podem ser remediados mas alguns, na minha opinião, não podem. Que um homem pré-histórico (que por algum motivo entende o teorema de probabilidades de Bayes) poderia elaborar o mesmo argumento sobre uma extinção relativamente iminente é uma objeção que deve ser pelo menos lembrada. Inferências e suposições sobre seres humanos futuros e seus comportamentos são ainda mais problemáticos.

Embora não haja dúvida de tempo suficiente para aprender mais sobre o argumento do Juízo Final e seus usos duvidosos do assim chamado princípio antrópico na filosofia, cosmologia e mesmo no dia a dia, o famoso conselho existencial de Ralph Waldo Emerson permanece válido: “Nenhum homem aprendeu nada até o exato momento que sabe que todo dia é o Apocalipse”.

De qualquer modo, continue sintonizado.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Irreligião - Capítulo 3

Esse capítulo é bem pequeno, então vou postar uma tirinha grande do Um Sábado Qualquer.


    Parte I: Quatro Argumentos Clássicos

  1. O argumento da Causa Primeira (e intermediários desnecessários)
  2. O argumento do Design (e alguns cálculos criacionistas)
  3. Uma pseudociência pessoalmente elaborada
  4. O argumento do Princípio Antrópico (e um Apocalipse Probabilístico)
---------------------------------------------------------------------------------------------------

Uma pseudociência pessoalmente elaborada

Em antecipação aos argumentos do princípio antrópico e coincidência que serão apresentados em capítulos posteriores, eu quero dar uma receita mágica matemática para qualquer um que possa querer desenvolver sua própria pseudociência. O astrônomo holandês Cornelis de Jager, que inventou o algoritmo seguinte para constantes físicas pessoais, usou-o para elaborar uma encantadora teoria sobre as propriedades metafísicas das bicicletas holandesas.

Aqui está a receita: pense em qualquer número associado com você (sua altura ou peso, o número de filhos que você tem, sua data de nascimento ou aniversário, qualquer coisa) e rotule esses números com X, Y, Z e W. Agora, considere vários produtos e potências desses números. Especificamente, considere a expressão Xa Yb Zc Wd, onde os expoentes a, b, c e d variam entre os valores 0, 1, 2, 3, 4, 5, 1/2, 1/3, 1/4 ou os valores negativos desses números. (Para qualquer número N, N1/2, N1/3 e N1/4 são iguais à raiz quadrada, raiz cúbica e raiz quarta de N, respectivamente, e N com um expoente negativo, digamos N-2 é igual a 1 sobre N elevado ao expoente positivo correspondente, 1/N2.) Uma vez que cada um dos quatro expoentes pode ser qualquer um desses 17 números, o número de possíveis escolhas de a, b, c e d é, pelo princípio da multiplicação, 83521 (17 x 17 x 17 x 17). Existe então essa quantidade de possíveis valores para a expressão Xa Yb Zc Wd.

Entre todos esses valores, provavelmente existirão alguns que serão iguais, ao menos em algumas casas decimais, a alguma constante universal. Como a velocidade da luz, a constante gravitacional, a constante de Planck, a constante de estrutura fina, o ponto de ebulição do carbono e assim por diante. Se não existirem, as unidades na qual essas constantes ou os seus números pessoais são expressos podem ser alteradas para chegar à equidade necessária. Um programa de computador pode facilmente ser escrito para checar qual dessas constantes universais é igual a um dos 83521 números gerados pelos seus quatro números originais.

Assim você pode aprender que para os seus números particulares X, Y, Z e W, o número X2 Y1/2 Z-3 W-1 é igual à distância do sol até a terra em milhas (ou quilômetros ou metros ou polegadas). Ou você pode descobrir qualquer uma de muitas correspondências entre seus números pessoais e essas constantes universais. A receita pode claramente ser revisada e melhor desenvolvida, mas usando alguma versão dela, você revelará alguma maravilhosa correspondência entre seus pequenos números e as constantes cósmicas do mundo. De Jager, um entusiasta das bicicletas, descobriu que o diâmetro do pedal da sua bicicleta multiplicada pela raiz quadrada do produto do diâmetro da sua campainha e da lanterna é igual a 1836, a razão da massa de um próton para a de um elétron. A propósito, a razão da altura do Sears Tower, em Chigaco, para a altura do Woolworth Building, em Nova York é igual aos mesmos dígitos significativos (1,836 ao invés de 1836) como o visto acima. Talvez as correspondências geradas dessa maneira denotem um Deus pessoal. Sim, claro.

Embora o descrito acima não seja particularmente engraçado, também não é reverencial e sugere algumas questões sobre religião e humor. Por que a noção de um fundamentalista comediante engraçado é tão estranha? Por que (pelo menos para mim) a ideia de Deus como um comediante parece mais atraente do que a visão tradicional de Deus? Por que a solenidade tendem a infectar quase todas as discussões sobre religião? Certamente, a incapacidade ou relutância do quadro preferido de alguém é parte da resposta. Também é uma intolerância para com o carater provisório e fantástico. A incongruência necessária para apreciar humor é apenas reconhecível com uma mente aberta e nova perspectiva. (Um famoso “argumento” para uma proposição abstrata simbolizada por p vem à mente. É atribuída ao filósofo Sidney Morgensbesser e ilustra, ou talvez simula, essa inconstância fluida. “Então, se não p, o que? q talvez?”)

De qualquer forma, um ministro, um rabino, um iman e um nervoso ateísta, cada um acreditando em sua verdade literal e estrita (ou literal falsidade) de suas escrituras sagradas, estavam estreando no Improv e...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Irreligião - Capítulo 2

Continuando a tradução do livro Irreligião, esse é o segundo capítulo, que trata do Design Inteligente.

Para complementar esse capítulo, esse vídeo parece ótimo:


Percebi nas estatísticas algumas visitas, mas nenhum comentário nos textos. Gostaria de pedir que comentassem, corrigissem a tradução ou apenas digam que leram.

    Parte I: Quatro Argumentos Clássicos

  1. O argumento da Causa Primeira (e intermediários desnecessários)
  2. O argumento do Design (e alguns cálculos criacionistas)
  3. Uma pseudociência pessoalmente elaborada
  4. O argumento do Princípio Antrópico (e um Apocalipse Probabilístico)
---------------------------------------------------------------------------------------------------

O argumento do Design (e alguns cálculos criacionistas)

As árvores balançando ao vento, as colinas e os vales, os lagos repletos de peixes, são todos lindamente extraordinários. Como poderia Deus não existir? Um dos sentimentos mais familiares por trás dos argumentos da existência de Deus, esse aponta para a complexidade e/ou propósito inerente à natureza. Assim chamados argumentos teleológicos (ou argumentos do design), variam levemente em forma, mas todos atribuem essa complexidade ou propósitos percebidos a um criador divino. Essa é a estrutura básica deles:



  1. Algo – A diversidade de formas de vida, a beleza da paisagem, as estrelas, a fina estrutura de constantes – é muito complexo (ou muito perfeito) para aparecer aleatoriamente ou por mero acaso.

  2. Esse algo precisa ser a criação de algum criador

  3. Portanto, Deus, o Criador, existe.



Uma versão alternativa aponta para um propósito que alguns vêem permear a natureza.



  1. O mundo em geral ou formas de vida nele parecem ser evidência clara de uma clara intenção ou direção.

  2. Deve haver um diretor por detrás desse propósito.

  3. Essa entidade deve ser Deus, e, portanto, Deus existe.



Devo primeiro mencionar que existe usos de explicações teleológicas que não tem objeções, aqueles que fazem referência a propósito e intenção, especialmente quando essas explicações podem ser facilmente reformuladas em termos não intencionais. Por exemplo, “O termostato está tentando manter a casa em uma certa temperatura” pode ser reescrito em termos de diferentes taxas de expansão dos metais. Quando esquenta, esse metal expande mais rápido que o outro e aciona um interruptor que desliga o aquecedor e, quando fica frio, o metal contrai mais rápido, ligando o aquecedor novamente. Ninguém esta atribuindo intencionalidade aos metais.

O argumento teleológico data da Grécia antiga, mas provavelmente seu proponente mais conhecido seja o teólogo inglês William Paley, de quem a analogia do relojoeiro é geralmente citada por cientistas criacionistas e outros. Paley nos pede para nos imaginarmos vagando por um campo não cultivado e encontrando um relógio caído no chão. Ele compara a evidência de design no relógio, que certamente todos reconhecem, à evidência de design na natureza – plantas, animais e coisas do gênero. Assim como o relógio claramente tem um criador humano, Paley argumenta que o design na natureza deve ter um criador divino. (Exclamar “Oh meu Deus!” ao encontrar um Rolex de ouro perto de algumas flores bonitas não conta a favor do argumento).

Curiosamente, essa analogia do relógio volta muito atrás, para Cícero, de quem os relógios, entretanto, eram solares e aquáticos. Relógios com componentes simples de quartzo e silício e seus futuros refinamentos podem também ser citados. Apesar de que todos esses dispositivos de cronometragem possam ser outra coisa (esse último pode ser confuso como, por exemplo, com areia em uma praia), as pessoas estão familiarizadas com seus próprios artefatos culturais e reconhecem sua origem humana. Nós sabemos o que os humanos fazem, mas essa familiaridade não pode ser assumida com os alegados artefatos divinos.

A mais flagrante fraqueza dos argumentos teleológicos é, entretanto, a Premissa 1. Qual é a probabilidade de tal complexidade? Como nós sabemos se algo é tão complexo para surgir por si mesmo? Qual a origem dessa complexidade? Criacionistas explicam o que consideram como a complexidade absurdamente improvável de formas de vida postulando um criador. Que esse criador deveria ter uma complexidade vastamente maior e vastamente mais improvável que as formas de vida que criou não parece incomodá-los. Não obstante, é natural fazer sobre o criador as mesmas perguntas feitas sobre as alegadas criações. Lançando uma carta similar àquela recursiva jogada no argumento da primeira causa, questionamos sobre a origem da complexidade do criador. Como ela surgiu? Existe uma completa hierarquia de criadores, cada um criado por um criador de ordem maior e todos, exceto pelo criador de ordem menor, o nosso, criando algum de ordem menor?

Deixe-me sublinhar esta última parte irreligiosa de uma maneira um pouco diferente. Se uma certa entidade é muito complexa e é considerado extremamente improvável que essa complexidade tenha sido formada por si mesma, então o que é explicado por atribuir a complexidade improvável a um ser muito mais complexo e de fonte muito mais inexplicável? Este esquema de Ponzi criacionista leva rapidamente à falência metafísica.

Eu me lembro da namorada de um colega de faculdade que tinha, aparentemente, entendido errado algo que ela tinha lido sobre dispositivos mnemônicos. Para memorizar um número de telefone, por exemplo, ela poderia ter se lembrado que seu melhor amigo tinha duas crianças, seu dentista tinha cinco, sua colega de quarto três, seu vizinho de um lado tinha três cachorros, o do outro lado tinha sete gatos, seu irmão mais velho tinha oito crianças se contarmos as de todas as esposas e ela mesma era uma de quatro crianças. O número de telefone deve ser 253-3784. Seus mnemônicos eram complicados, inventivos, divertidos, sem relação com qualquer outra estrutura, e sempre muito mais longos do que o que eles foram concebidos para ajudá-la a se lembrar. Eles também parecem cometer o mesmo engano que os criacionistas quando eles “explicam” a complexidade invocando uma complexidade maior.

A metáfora sedutora que o argumento do design nos mostra pode também ser reescrito em termos de um grande modelo Lego de, digamos, a catedral de Notre Dame. Se alguém chegar a ele, será obrigado a dizer que os blocos foram colocados juntos por humanos inteligentes. Além disso, se o modelo fosse separado e colocado em uma sacola grande e a sacola fosse sacudida por um longo tempo, alguém poderia ser muito resistente à ideia de que as peças de Lego poderiam encaixar por elas mesmas na forma da catedral novamente.

Certamente, o verdadeiro problema da Premissa 1 e que, ao contrário da situação com o modelo de Lego, existe uma bem confirmada explicação alternativa para a origem da complexidade da vida (e sua maravilhosa diversidade) e – soam as trombetas – essa é a teoria da evolução de Darwin. Mas a ciência criacionista e sua descendente supostamente mais científica, a teoria do design inteligente, rejeita a evolução como por ser incapaz de explicar a complexidade da vida. Criacionistas insistem que os aminoácidos, blocos básicos para a construção do DNA, são como as peças de Lego e não poderiam ter sido colocadas juntas “por acidente”. Fazer isso, eles argumentam, seria muito improvável.

Devo ressaltar que eles também, às vezes, citam a segunda lei da termodinâmica como provendo evidência de sua posição. A segunda lei afirma que em um sistema fechado, entropia (ou, grosseiramente, mas um pouco impreciso, desordem) sempre aumenta. O jarro de vidro quebra, café se dispersa no leite, ar escapa de um balão furado e essas coisas não acontecem ao inverso. Criacionistas algumas vezes colocam humanos, plantas e animais como sendo contra exemplos da segunda lei, já que eles geralmente se tornam mais ordenados com o tempo. Existe uma resposta bem detalhada a isso, mas existe também uma bem curta: uma vez que as coisas vivas estão abertas para o que os cerca e a terra está aberta para o sol, eles claramente não são sistemas fechados e, então, não são contra exemplos da segunda lei. Humanos locais diminuindo em entropia são perfeitamente consistentes com a termodinâmica.

Os resultados de um recente estudo internacional na revista Science pelo professor Jon Miller da Universidade de Michigan e seus associados documentam a prevalência de crença do tipo acima sobre a origem da vida. O estudo deles encontrou não apenas que um número crescente de americanos não acreditam na teoria da evolução mas que de trinta e dois nações europeias e o Japão, apenas a Turquia tem uma maior percentagem de cidadãos rejeitando Darwin. Os autores atribuem os resultados nos Estados Unidos ao fundamentalismo religioso, educação científica inadequada e manobra de partidos políticos. Em relação ao último, Miller escreve: “Não existe nenhum partido político majoritário na Europa e no Japão que utilize oposição à evolução como parte da sua plataforma política”.


Existe um outro fator dessa oposição à evolução que eu quero brevemente discutir aqui. É a tentativa orquestrada pelos criacionistas de vestir com o traje de fundamentos matemáticos alegações sobre origem humana e focar as críticas no que eles dizem ser a minúscula probabilidade do desenvolvimento evolucionário. (Até mesmo a comentarista conservadora de televisão e grande bióloga Ann Coulter emprestou sua perspicácia a esse esforço matemático em seu mais recente livro Godless: The Church of Liberalism [Sem Deus: A Igreja do Liberalismo].)

Criacionistas argumentam que a probabilidade que, digamos, uma nova espécie de cavalos se desenvolva é absurdamente pequena. O mesmo, eles dizem, é verdade para o desenvolvimento do olho ou de alguns sistemas ou mecanismos fisiológicos.

De maneira um pouco mais precisa, o argumento segue grosseiramente como: Uma sequência muito longa de mutações individualmente improváveis devem ocorrer em ordem para que uma espécie ou um processo biológico evolua. Se assumirmos que esses esses são eventos independentes, então a probabilidade que todos eles ocorrerão na forma correta é o produto de suas respectivas probabilidades, que é sempre um pequeno número. Assim, por exemplo, a probabilidade de tirar 3, 2, 6, 2 e 5 quando rolar um dado simples cinco vezes é 1/6 x 1/6 x 1/6 x 1/6 x 1/6 ou 1/7776 – uma chance em 7776. A sequência muito maior de eventos fortuitos necessários para que uma nova espécie ou um novo processo evolua levam a uma probabilidade minúscula que, os criacionistas argumentam, prova que a evolução é tão descontroladamente improvável que chega a ser essencialmente impossível.

Essa linha de argumento, entretanto, é profundamente falha. Note que existe sempre um número fantasticamente grande de caminhos evolucionários que podem ser tomados para um organismo (ou um processo), mas existe apenas um que será tomado. Então se, depois do fato, observarmos o caminho evolucionário em particular que foi realmente tomado e então calcularmos a probabilidade de terem sido tomados a priori, teremos a probabilidade minúscula que os criacionista erroneamente ligam ao processo como um todo.

Deixando de lado as questões com a independência, adequação à região e aleatoriedade (todas as analogias são limitadas), eu ofereço outro exemplo. Temos um conjunto de cartas à nossa frente. Existem quase 1068 – um 1 com 68 zeros depois dele – ordenamentos possíveis das cinquenta e duas cardas do baralho. Alguma das cinquenta e duas cartas deve ser a primeira e alguma das cinquenta e uma restantes deve ser a segunda, uma das cinquenta a terceira e assim por diante. Esse é um número monstruoso, mas não é difícil de imaginar mesmo situações do dia a dia que fazem surgir números muito maiores. Agora, se nós embaralharmos as cartas por um longo período de tempo e então examinarmos a ordem em particular que essas cartas assumiram, estaríamos certos em concluir que a probabilidade dessa particular ordem de cartas ocorrer é de aproximadamente uma chance em 1068. Essa probabilidade certamente se qualifica como minúscula.

Contudo, não estaríamos certos em concluirmos que o embaralhamento não poderia resultar nessa ordem em particular porque a sua probabilidade a priori é muito pequena. Alguma ordem deveria resultar do embaralhamento e foi essa que resultou. Nem mesmo, é claro, estaríamos certos ao concluirmos que o processo como um todo de mover de uma ordem de cartas para outra por meio do embaralhamento é tão descontroladamente improvável que seria praticamente impossível.

O resultado real do embaralhamento sempre terá uma minúscula probabilidade de ocorrer mas, a menos que você seja um criacionista, isso não significa que o processo de obter o resultado é dúbio, afinal de contas. O estudo da Science é preocupante por várias razões, não é a menor delas é que não existem como dizer para qual comprimento a tromba criacionista do elefante GOP vai evoluir.

Um argumento criacionista relacionado é fornecido por Michael Behe, um dos principais apoiadores do design inteligente. Behe compara o que ele chama de “complexidade irredutível” de fenômenos como a coagulação do sangue à irredutível complexidade de uma ratoeira. Se apenas uma das peças da ratoeira estiver faltando – seja a mola, a plataforma de metal ou a tábua – a ratoeira é inútil. A sugestão implícita é que todas as partes da ratoeira teriam que existir ao mesmo tempo, uma impossibilidade a não ser que exista um designer inteligente. Os proponentes do design argumentam que o que é verdadeiro para a ratoeira é mais verdade ainda para os fenômenos biológicos muito mais complexos. Se qualquer uma das mais ou menos vinte proteínas envolvidas na coagulação sanguínea estiver ausente, por exemplo, a coagulação não ocorre e então, o argumento criacionista continua, essas proteínas devem todas ter sido criadas de uma vez pelo designer.

Mas a teoria da evolução explica a evolução de fenômenos e organismos biológicos complexos e o argumento de Paley para o design foi refutada decisivamente. Para registro, seleção natural é um processo altamente não-aleatório que age nas variações genéticas produzidas por mutações aleatórias e deriva genética, e resulta nesses organismos com traços mais adaptados sobrevivendo e reproduzindo. Não é o mesmo que macacos simplesmente digitando aleatoriamente Shakespare em uma máquina de escrever convencional. É mais parecido com macacos digitando aleatoriamente em uma máquina de escrever especial que marginalmente mais frequentemente do que não reter letras corretas apaga as incorretas. (Estranhamente, o fato de nós e toda a vida ter evoluído de simples formas de vida por seleção natural perturba os fundamentalistas que são completamente impassíveis com a alegação bíblica de que nós viemos do barro.)

Outras defesas de Darwin ou refutações a Paley não estão nos meus objetivos, no entanto. Aqueles que rejeitam a evolução são usualmente imunes a esse tipo de argumento, de qualquer forma. Por outro lado, minha intenção final é desenvolver algumas analogias entre essas questões biológicas e as econômicas relacionadas e, em segundo lugar, mostrar que essas analogias apontam para um cruzamento político surpreendente.

Como é que as modernas economias de livre mercado são tão complexas como elas são, ostentando produção, distribuição e sistemas de comunicação incrivelmente elaborados? Entre em praticamente qualquer farmácia e você pode encontrar seu doce favorito. Todo supermercado tem sua marca de molho de espaguete, ou senão a loja da esquina tem. Os jeans do seu tamanho e estilo estão em qualquer vizinhança.

E o que é verdade no nível pessoal é verdade também no nível industrial. De alguma forma, existem bastantes rolamentos e chips de computador nos lugares certos das fábricas de todo o país. A infraestrutura física e redes de comunicação são também maravilhas de complexidade integrada. Fornecimento de gás e gasolina estão, na maioria das vezes, onde eles são necessários. Seus e-mails chegam a você tanto em Miami como em Milwaukee, sem mencionar Barcelona e Bangkok.

A questão natural, discutida primeiro por Adam Smith e depois por Friedrich Hayek e Karl Popper, entre outros, é: Quem desenhou essa complexidade maravilhosa? Que comissário decretou o número de pacotes de fio dental para cada ponto de venda? A resposta, é claro, é que nenhum deus econômico desenhou o sistema. Ele emergiu e cresceu por si mesmo. Um exemplo espantosamente simples de evolução espontânea de ordem. Ninguém argumenta que os componentes do sistema de distribuição de doces deve ter sido posto no lugar de uma vez senão não haveria Snickers na loja da esquina.

Até agora, tudo bem. O que é um pouco mais estranho, entretanto, é que alguns dos mais ardentes oponentes da evolução Darwiniana – por exemplo, muitos cristãos fundamentalistas – estão entre os mais ardentes defensores da liberdade de mercado. Essas pessoas aceitam a complexidade natural do mercado sem pestanejar, mas eles insistem que a complexidade natural dos fenômenos biológicos requerem um designer.

Eles rejeitariam a ideia de que existe ou deveria existir um planejamento central na economia. Eles ressaltariam justamente que simples trocas econômicas que são benéficas para as pessoas se tornam intrincadas e então gradualmente modificadas e melhoradas à medida em que se tornam parte de um sistema maior de trocas, enquanto aqueles que não são benéficos morrem. Eles aceitam a alegação de que a mão invisível de Adam Smith traz espontaneamente ordem à economia moderna. No entanto, como notamos, algumas dessas mesmas pessoas recusam-se a acreditar que a seleção natural e “processos cegos” podem chegar a ordem biológica similar surgindo espontaneamente. E a recusa deles, se as respostas a alguns dos meus livros e colunas irreligiosas são típicas, geralmente vão de injuriosos para venenosos, com a maior aglomeração em torno do último.

Nem mesmo grande inteligência é requerida. Programas do tempo do jogo da vida do matemático John Horton Conway utiliza regras de interação muito simples entre “agentes” virtuais e leva a complexidades similares às do tipo econômico. Assim também, algoritmos genéticos e modelos envolvendo os autômatos celulares de Stephen Wolfram e muitos outros, dos quais falarei depois.

Essas ideias não são novas. Como mencionado, Smith, Hayek, Popper e outros o fizeram de forma mais ou menos explícita. Recentemente, vem surgindo muito mais ecos matemáticos dessas analogias invocando redes, complexidade e sistemas teóricos. Eles incluem um ensaio de Kelley L. Ross assim como os breves comentários de Mark Kleiman e Jim Lindgren.

Existem, é claro, muitas diferenças significantes e desanalogias entre sistema biológicos e os econômicos (um sendo que biologia é uma ciência muito mais substancial do que a economia), mas elas não podem nos cegar às suas similaridades ou mascarar as analogias óbvias.

Essas analogias ressaltam duas questões finais. O que você pensaria de alguém que estudasse entidades econômicas e suas interações nas modernas economias de livre mercado e insistisse que elas foram, apesar de um registro do seu desenvolvimento perfeitamente razoável e suportado empiricamente , a consequência de algum legislador todo poderoso e obsessivo por detalhes? Você pode considerar essa pessoa um teórico da conspiração.

E o que você pensaria de alguém que estudasse processos biológicos e organismos e insistisse que eles foram, apesar de uma teoria Darwiniana do seu desenvolvimento perfeitamente razoável e suportada empiricamente, a consequência de um legislador biológico todo poderoso e obcecado por detalhes?


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Irreligião

Procurei a tradução desse livro e não consegui encontrar em lugar nenhum. Acho que não foi traduzido. Se foi, alguém me diga, por favor. Iniciei a tradução por causa da minha namorada, Bruna. Quero que ela leia o livro mas ela não entende inglês.

A tradução é uma iniciativa pessoal, muita coisa pode estar imprecisa e incorreta. Aguardo correção de algum leitor (se existir algum). Não traduzirei o prefácio nem outras partes anteriores, atendo-me à tradução dos capítulos. Esse é o texto do primeiro capítulo. Pretendo postar capítulo por capítulo, assim que for terminando. O livro é pequeno, cerca de cento e cinquenta páginas.

Na minha opinião, existem poucos livros bons sobre ateísmo escritos em português ou traduzidos para o português. Acho que não existe muito interesse em fazer isso, especialmente no Brasil, país de maioria católica e que a maioria da população, mesmo os mais pobres, tem uma postura bem conservadora e não procura questionar.

Essa tradução é também um exercício para o meu inglês, que não é tão bom, apenas médio. Por isso, deve haver muitos erros. Ela só saiu graças à ajuda do google translator em algumas (muitas) partes. Vamos ao texto:

    Parte I: Quatro Argumentos Clássicos

  1. O argumento da Causa Primeira (e intermediários desnecessários)
  2. O argumento do Design (e alguns cálculos criacionistas)
  3. Uma pseudociência pessoalmente elaborada
  4. O argumento do Princípio Antrópico (e um Apocalipse Probabilístico)
---------------------------------------------------------------------------------------------------

Irreligião: Um matemático explica por que os argumentos para a existência de Deus simplesmente não batem


John Allen Paulos



Parte I: Quatro argumentos clássicos


O argumento da Causa Primeira (e intermediários desnecessários)

A primeira frase do livro do Genesis, “No princípio”, sugere o argumento da primeira causa para a existência de Deus. Ao esclarecer a estrutura do argumento, Bertrand Russel cita um relato aparentemente diferente do princípio – o mito hindu de que o mundo repousa sobre um elefante e o elefante repousa sobre uma tartaruga. Quando questionado sobre a tartaruga, o hindu responde: “Suponhamos que mudemos de assunto”.

Mas não vamos mudar de assunto. Como farei por todo o livro, começarei com um esquema aproximado do argumento em questão:


  1. Tudo tem uma causa ou, talvez, muitas causas.

  2. Nada é sua própria causa.

  3. Cadeias causais não podem continuar para sempre.

  4. Então, deve existir uma primeira causa.

  5. Essa primeira causa é Deus, que, portanto, existe.


Se assumirmos a compreensão cotidiana de “causa” e aceitarmos a argumentação acima, então é natural identificar Deus como a primeira causa. Deus foi o primeiro, de acordo com meu conhecimento religioso, que “colocou a bola para rolar”. Uma pequena variação deste é o chamado argumento cosmológico, que data dos tempos de Aristóteles e depende da teoria do Big Bang da origem do universo (ou algum precursor primitivo dele). Ele afirma que o que quer que tenha um começo tem que ter uma causa e desde que pensemos que o universo tenha um começo, ele deve ter uma causa.

Então, encontramos Deus? Ele é simplesmente o Primeiro Jogador de Boliche ou o Cara do Big Bang? Isso encerra o caso? Claro que não. O argumento não chega nem perto. Um dos furos é a Premissa 1, que poderia ser melhor formulada como: ou tudo tem uma causa ou existe algo que não tem nenhuma causa. O argumento da primeira causa cai nesse buraco, não importa o rumo que tomemos. Se tudo tem uma causa, então Deus também tem e não existe primeira causa. E se alguma coisa não tem uma causa, isso pode ser também o mundo físico ou Deus ou a tartaruga.

Para alguém que afirme que Deus é a primeira causa sem causa (e então fica como se tivesse explicado alguma coisa), devemos então perguntar: “por que o mundo físico não pode ser tomado como a primeira causa sem causa?” afinal de contas, o venerável princípio da navalha de Occam nos aconselha a “raspar fora” suposições desnecessárias e tomar o próprio mundo como a primeira causa sem causa tem a grande virtude de não introduzir a hipótese desnecessária de Deus.

Além do mais, todas as questões estimuladas ao aceitar a existência sem causa do mundo físico – Por que ele está aqui? Como ele apareceu e, claro, O que o causou? – pode facilmente e apropriadamente ser questionadas sobre Deus. Por que Deus está aqui? Como Ele apareceu? O que O causou? (Esse caminho reflexivo não é diferente do questionamento infantil “E sobre a sua mãe?”. Mas, em vez disso, “E sobre o seu pai?"). O poder de persuasão desse tipo de resposta ao argumento da primeira causa é indicado pela reação exasperada de Santo Agostinho a uma versão dela. Quando ele foi questionado sobre o que Deus estaria fazendo antes de criar o mundo, Agostinho supostamente respondeu: “Ele estava criando o inferno para pessoas que perguntam coisas como essa”.

Uma objeção ligada a esse argumento é que a primeira causa sem causa não precisa ter nenhuma qualidade tradicional de Deus. Ela é simplesmente a primeira e, como sabemos de outros campos, ser o primeiro não significa ser o melhor. Ninguém se gaba de ainda usar os primeiros computadores a entrar no mercado. Mesmo se a primeira causa existisse, poderia ser simplesmente um fato bruto – ou, pior ainda, um bruto de verdade.

Apesar disso, esforços de alguns em por Deus como a primeira causa, completamente fora do tempo e espaço, acabaria inteiramente com a noção de causa, que é definida em termos de tempo. Afinal de contas, A causa B somente se A vem antes de B e a primeira causa vem – surpresa – primeiro, antes das suas consequências. (Colocar Deus fora do espaço e tempo também impede qualquer tipo de intervenção divina posterior nos assuntos mundanos.) De fato, a linguagem comum se quebra quando contemplamos essas questões. A frase “início dos tempos”, por exemplo, não pode contar com os mesmos pressupostos que “início do filme”. Antes do filme, existe compra de pipoca, trailers ou qualquer coisa antes no universo.

A noção de causa tem outros problemas. Ela não está nem perto de ser clara e robusta como esteve antes de que o filósofo escocês do século XVIII David Hume e a mecânica quântica do século XX qualificarem-na. Hume argumentou que a frase “A causa B” significa nada mais do que “A foi seguido por B em toda instância que nós examinamos”. Toda vez que soltamos uma pedra, ela caiu. Já que é muito fácil imaginar soltar uma pedra não ser seguido pela sua queda, entretanto, a conexão lógica entre a causa e o efeito não pode ser uma conexão lógica necessária. A ligação entre um evento e suas causas é contingente e bastante fraca. Não podemos mover confiadamente de um evento para sua(s) causa(s) como imaginava-mos. Causas são descobertas pela experiência, e não por um raciocínio a priori, fazendo de “causa” uma noção muito menos clara do que o argumento da primeira causa pressupõe. Construir uma estrutura de ferro é muito mais fácil do que construir uma de macarrão e os argumentos são de alguma forma metaforicamente similares.

E se adicionarmos à noção de “causa” que Hume e outros pensadores modernos de causalidade e indução científica, a implicação da mecânica quântica de que “causa” é, na melhor das hipóteses, probabilística (sem mencionar todas as esquisitices quânticas que têm sido catalogadas pelos físicos), o argumento da primeira causa perde muito da sua limitada força. De fato, algumas versões da cosmologia quântica explicitamente retira uma primeira causa. Outras questões indicam que o Big Bang e o nascimento do universo são um fenômeno recorrente.

Curiosamente, o assim chamado argumento das leis naturais para a existência de Deus tem uma estrutura similar ao da primeira causa e é também vulnerável a um tipo de jiu-jitsu similar. Ele pode até mesmo ser explicado aos filhos conversando pouco no banco de trás. É aquele que pergunta “Por que isso, papai?” e responde à sua explicação com um outro “Por que?” e responde à sua explicação mais geral com outro “Por que?” e de novo, de novo e de novo. Eventualmente, você responde: “Porque é do jeito que é”. Se isso satisfizer a criança, o jogo acabou, mas se continuar por mais um round e você for do tipo religioso, você pode responder com um “porque Deus fez desse jeito”. Se isso satisfizer, o jogo acabou, mas e se a criança continuar insistindo?

Colocado de uma maneira mais formal, o argumento das leis naturais aponta para uma regularidade física que tem sido trabalhosamente descoberta por físicos e outros cientistas naturais e coloca Deus como um legislador, o autor dessas leis. Qualquer que seja a força desse argumento, entretanto, é grandemente diminuída ao questionar, como a amável criança curiosa deveria, por que Deus “fez dessa maneira”.Isto é, por que Ele criou essas leis naturais em particular? Se ele fez isso arbitrariamente, por nenhuma razão, então há algo que não segue as leis naturais. A cadeia de leis naturais está quebrada e, por isso, podemos pegar as próprias leis naturais como o “porquê” final arbitrário. Por outro lado, se Ele teve uma razão de fazer as leis naturais em particular que fez (por exemplo, para formar o melhor universo possível), então, Deus por si mesmo é sujeito a certas restrições preexistentes, padrões e leis. Nesse caso, também, não há muita razão de colocá-lo como um intermediário, em primeiro lugar.

Ainda assim, os filósofos desde Aristóteles, Aquino a Gottfried Leibniz têm insistido que algo deve explicar o universo – suas leis e até sua própria existência. Leibniz em sua famosa e sucinta pergunta, questionou: “Por que existe algo em vez de nada?” De fato, por que as coisas existem? Invocando seu princípio de razão suficiente, que diz que deve existir razão suficiente (ou causa) para cada fato, ele respondeu sua própria questão. A razão suficiente para o universo, ele afirmou, “é um ser necessário, trazendo consigo sua própria razão de existência”. O ser necessário é Deus, a primeira causa, que causou ou trouxe não apenas o mundo físico, mas ele mesmo, de alguma forma.

Isso sugere que uma reação razoável a essas refutações dos argumentos da primeira causa e da lei natural é questionar Premissa 2 que nada é sua própria causa. Alguns tem tentado criar algum sentido lógico com a primeira causa causando não só a(s) segunda(s) causa(s) mas também a si mesma ou, analogamente, a lei mais geral explicando não só a(s) lei(s) mais próximas, mas também a si mesma. O falecido filósofo Robert Nozick considera tal princípio auto-subsuntivo em seu livro “Explicações filosóficas”. Lá, ele introduz a ideia de um abstrato auto-subsuntivo princípio, P, do seguinte tipo: P diz que toda afirmação em forma de lei que tem a característica C é verdadeira. Princípio P é usado para explicar porque outras leis menos gerais são verdadeiras. Elas são verdadeiras porque elas têm a característica C. E o que poderia explicar que P é verdadeiro? Uma possível resposta poderia ser que P tem também a característica C. Em resumo, P, se verdadeiro, explicaria a si mesmo. Mesmo Nozick afirmava que isso “parece um pouco estranho – uma façanha do ilusionismo”. Entretanto, não há muitas alternativas. A cadeia de causas (leis) ou é finita ou infinita. Se é finita, a causa mais básica (ou lei mais geral) é ou um fato bruto ou arbitrário ou auto-subsuntivo. Nozick também escreveu sobre certos exercícios yogues místicos que ajudam a entender uma experiência análoga de auto-subsunção. Ele teorizou que “um dos atos que o yogue faz, durante sua experiência de ser identico à infinitude é a auto-felação, onde eles têm uma experiência intensa e extática de auto-geração, do universo e de si mesmos voltando-se sobre si mesmo em auto-criação”. Essa não é a imagem tradicional de um Criador e, isso dito, o leitor pode inserir sua própria piada aqui.